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Matéria publicada na revista "Bons Fluidos" da editora abril em janeiro de 2001.
Sabores da vida – por Sonia Hirsch
Um mergulho cheio de confiança
Era nossa primeira sessão de watsu (water + shiatsu em piscina aquecida), e Alex, o terapeuta, perguntou se eu queria experimentar waterdance, uma técnica de dança debaixo d’água. Aceitei. Ele me deu um pregador para tapar o nariz, e combinamos um sinal para eu inspirar fundo antes de submergir.
É uma experiência inteiramente nova. Solto e relaxado, mornamente acolchoado pela pressão constante da água, o corpo vai sendo movimentado como peixe, como alga, sem esforço, levado pelo terapeuta a experimentar posições e ângulos de crianças, acrobatas, bailarinos. Cada seqüência dura relativamente pouco, o tempo que se consegue prender a respiração, mas a duração interna é imensa. São sensações continuamente surpreendentes, umas confortáveis, outras não, em que o barato é se soltar cada vez mais, flutuar, esquecer de tudo, virar de verdade peixe e alga, remo, corda, folha.
Às vezes a sensação de estar voando, às vezes dançando, às vezes esvaziada de tudo, grande, pequena, indo reto, rodando, mero detalhe no universo da água morna em movimento. E a mente? Primeiro observa, atenta, talvez com pouco de medo, e o medo prende o corpo. Depois um milagre: à medida que aumenta a entrega, as articulações profundas relaxam, e a mente se dilui junto às sensações da pele e da carne. Continuam passando idéias e imagens pela cabeça de um modo muito solto, assim como a água também passa num jorro quente e macio. A atenção está tão presente nos acontecimentos do corpo que os pensamentos ficam só boiando.
Na água, o mistério da vida
Água é o elemento primeiro da vida na Terra. Isso aqui era uma bola de fogo girando em meio a uma infinidade de gases, substâncias carbonizadas, fragmentos diversos. Oxigênio e hidrogênio existiam livres na atmosfera. Um dia se combinaram em H2O e choveu (choveu muito, tanto que cobriu de água quase 80% da terra). Apagou-se o fogo, menos o dos vulcões, molharam-se as cinzas, que viraram terra com os fragmentos de rocha, cristal, metal, e lá pelas tantas a mistura começou a produzir minúsculos seres viventes de uma célula só que se reproduziam sem cessar. Da evolução desse princípio surgimos nós. Voltar para água em boas mãos revive memórias muito primitivas da vida, como o crescimento na barriga da mãe, dentro da placenta quentinha, flutuando no líquido sem respirar, a vida fluindo sem esforço.
Pela medicina tradicional chinesa, a água é a forca que governa os rins, que por sua vez regulam o volume de água no organismo e o equilíbrio das células, por isso são definidos como raiz da vida, mansão do fogo e da água, residência do yin e do yang, canal da vida e da morte. Como o planeta, somos quase 80% de água. Todos dependemos dela para manter vivos nossos tecidos. Beber água, o mais banal dos gestos, encerra um segredo: a sobrevivência. Eliminar água, via urina, suor e respiração, encerra outro: a desintoxicação.
A sessão de waterdance vai se acalmando, os movimentos mais lentos e suaves, os últimos mergulhos levando à posição fetal. A música cessou. Pacificada, abraço com gratidão o amigo que me proporciona essa experiência única. Não só de fluir na água, mas também de desfrutar do sentimento de plena confiança em outro ser humano.
Neste ano novo, deixo flutuando um desejo: que todos tenham ao menos uma pessoa em quem possam confiar, e que essa confiança seja capaz de dissolver as couraças em que nos guardamos para nada.
Feliz 2001. bom mergulho.